domingo, 1 de maio de 2016

Madrugada





A madrugada é propicia para atividades das mais variadas. Ler, ouvir música, ver um filme, passeios noturnos e outras coisas igualmente prazerosas, mas menos edificantes, se é que você me entende.

Eu como a maioria dos músicos da galáxia, costumo deixar o ato da composição musical e “literária”, para um período mais paradoxal, quando o fim de um dia é igual ao inicio de outro.

Mas devo confessar que o que mais me atrai na madrugada, não é o silêncio, mas ouvir  o que  tem a dizer o silêncio. Admito se tratar de um período em que apesar de curto, se faz possível perceber coisas que durante o dia os ouvidos não são capazes de captar.

Como por exemplo, quão leve e pacifico é o sono dos pequenos, que ainda não carregam o peso do mundo nas costas, como sons inaudíveis devido à poluição sonora do dia, tornam-se tão nítidos durante a madrugada.

Às vezes é possível, mas só se prestar atenção, ouvir o som dos passos do gato que caminha pelo muro, indo e vindo não se sabe de e nem para onde. Quando chove a mistura dos sons do asfalto molhado e os pneus dos carros que ateiam água nos pedestres, pode ser ouvido no ultimo andar de um edifício adormecido.

Também é fantástico como a boa e velha viola, fica com um timbre tão limpo e desfiar as cordas torna-se mais prazeroso, tornando a busca pelo acorde perfeito bem menos cansativa.

As palavras, na madrugada você descobre que elas te chamam, no memento da rima que encerra o refrão, a palavra certa (se é que isso existe) se insurge aos berros caminhando silenciosamente ate o fim do verso.

Sei que o dia tem seus atrativos, é segundo alguns o período em que tudo acontece, mas o que acontece durante o horário comercial é só isso comercio. Estamos vendendo nossas horas em troca de salário que garante o sustento e uma falsa sensação de liberdade.

É no momento em que muitos dormem, quando tudo (ou quase tudo) para, que é possível perceber como seria mais simples e bela, a vida sem o irritante barulho da economia trabalhando.

Mas o que me motivou escrever este texto é o fato de morar em uma cidade com linha férrea e perceber, que só é possível ouvir o som do trem (de carga infelizmente), durante a madrugada, normalmente por volta das quatro da manhã. E ficar imaginando de onde ele vem e para onde ele vai.

Além de poder relembrar os tempos de criança, quando meu brinquedo preferido, era um trenzinho elétrico tipo Maria fumaça.

Cada vez que ouço o trem que atravessa Santa Luzia carregado de minério entre outras coisas, fecho os olhos, volto no tempo, me vejo criança, sentado na sala de casa, mas com os olhos fechados consigo me transportar para o trem verdadeiro, puxar a corda do apito gritar “todos a bordo!” e partir para onde ele quiser me levar.